sexta-feira, 6 de novembro de 2015



Bo Juel abandonou as Testemunhas de Jeová aos 23, depois que o Ancião (equivalente a pastor da igreja) que o havia molestado quando ele era criança foi convidado a voltar para a igreja pela terceira vez. Por sua decisão, Juel foi desassociado (excluído) por sua família, incluindo seu padrasto agressivo. A ele também foi proibido de ver sua filha indefinidamente (e, desde aquela época, seus dois netos). Ele acabou por se tornar um dos fundadores da AAWA: Advocates for Awareness of Watchtower Abuses (em português, algo como: Advogados pela Conscientização dos Abusos da Torre de Vigia), um grupo que lança luz sobre as violações dos direitos humanos feitas por Testemunhas de Jeová. Ele acaba de lançar um livro de memórias chamado The Least of God’s Priorities (A menor das prioridades de Deus), que traz uma visão comovente sobre sua jornada dentro e fora das Testemunhas de Jeová.


No excerto abaixo, Juel lembra de como foi ver o homem que o molestou pregar para uma multidão. Juel se pergunta como pode alguma vez ter acreditado num Deus que permitiria que aquilo acontecesse:


Eu não podia contar a ninguém sobre o que estava acontecendo. Eu não podia dizer nada a ninguém. Eu assisti esse homem mau ficar em pé na frente de um Salão do Reino e pregar sobre moralidade, sobre homens que fazem sexo com homens e outros pecados que pessoas cometeram, agindo como se ele estivesse cheio de justiça. Ele falou à congregação sobre tudo isso ao mesmo tempo em que eu estava sentado lá na platéia, sabendo que tipo de monstro doente ele era.
Eu sabia, e eu sentia que estava sozinho. Eu não podia falar com ninguém sobre isso, porque eu sabia o que ele faria para mim se eu dissesse. Eu tinha passado muitas horas naquele pequeno quarto, sabendo que, se ele quisesse, ele poderia me jogar lá e sumir com a chave, e ninguém jamais me encontraria. Ratos iriam me comer. Eu sabia que aquilo era o que aconteceria se eu contasse a alguém alguma coisa do que estava acontecendo.
O abuso continuou por muitos anos. Eu mal posso me lembrar de alguma coisa desse período da minha vida. Eu tenho todas essas lembranças terríveis e nada mais. Nada bom. Nada agradável, apenas dor e sofrimento e um espírito que quase morreu. Eu lutei para permanecer vivo e são nesses anos, algo que nenhuma criança dessa idade deve ter que fazer. Eu estava sempre com medo.
Ao mesmo tempo, eu comecei a entender o que acreditávamos como Testemunhas de Jeová, e essas crenças me assustaram ainda mais. Acreditávamos sem compaixão que Deus iria matar 99,9% dos seres humanos que vivem. Acreditávamos que fomos escolhidos para sobreviver, e que nós seríamos os únicos sobreviventes. Nós acreditávamos que estávamos melhor do que o resto da humanidade. Nós acreditávamos que Deus tinha escolhido a Watchtower Bible and Tract Society of New York para ser sua única organização aqui na terra, que estávamos no caminho certo, e que todo mundo estava errado. Todo o mundo. Nós ainda acreditávamos que Deus pode ler seus pensamentos, e se você peca em sua mente, então você está condenado.
Fico doente ao pensar em todas as noites em que eu estava orando para este deus, pedindo que ele me preservasse vivo. Eu prometi em minhas orações que eu nunca mais teria sequer um único pensamento mau novamente. No entanto, eu nunca lhe pedi para me salvar do abuso. Que razão eu teria para isso? Era um dos anciãos de nossa congregação que estava fazendo isso comigo. Um dos anciãos de Deus, que havia sido nomeado pelo Espírito Santo de Deus para liderar a congregação. Como eu poderia pedir a Deus que fizesse um de seus anciãos parar o que estava fazendo? Isso seria como dizer que o Espírito Santo tinha cometido um erro. O Espírito santo de Deus não comete erros, de modo que quem estava errado era eu, certo? Essa foi minha forma de pensar enquanto garoto, então eu apenas me entreguei ao meu destino e vivi lidando com o abuso todos esses anos. Eu fiquei quieto, até que em algum momento em 1981 toda a barragem dentro de mim simplesmente quebrou.
Posteriormente, Juel contou a sua família sobre que o ancião lhe fez e disse que não queria mais ir para as reuniões. Sua mãe arranjou que ele falasse com um policial, o que não pareceu adiantar de muita coisa.
Mais ou menos um mês depois que o policial esteve em nossa casa, perguntei a minha mãe o que iria acontecer com o homem que fez isso comigo. Ela evitou uma resposta direta, o que significa geralmente que a pessoa está escondendo alguma coisa ou não quer responder. Em vez disso, ela apenas me pediu para perguntar ao meu pai.
Foi o que eu fiz. Meu pai olhou para mim e disse: "Você sabe que, se isso se torna um caso em tribunal, você vai ter que sentar e dizer tudo na frente de um monte de gente, certo?" Eu não respondi. Ele continuou: "Se isto for a tribunal, haverá lá jornalistas com câmeras e eles vão tirar foto de você e colocá-la na primeira página do jornal. Todos os seus colegas vão ver o que aconteceu com você, e você não quer isso, não é? Eu balancei minha cabeça concordando.
Ele continuou: "Eu achei que não. É por isso que não haverá nenhum processo judicial, não haverá jornalistas, e não haverá mais conversa sobre isso, nunca mais. O homem que fez isso com você será desassociado da organização de Jeová. Isso é castigo suficiente. Ele vai morrer se o Armagedom vier amanhã, e você sabe o que acontece com aqueles que morrem no Armagedom, não é? "
Eu apenas balancei a cabeça. Eu sabia muito bem o que aconteceria com aqueles que fossem mortos no Armagedom; eles não teriam segunda chance. Eles iriam morrer pela mão do próprio Deus. Não há retorno para eles. "Então, não haverá julgamento e ele não vai pagar qualquer preço pelo que ele me fez?", perguntei.
"Ah, ele paga quando ele é desassociado do povo de Jeová. Aliás, eu disse que não haveria mais conversa sobre isso." Ele sugeriu com seu corpo que eu desse o fora dali, e foi o que eu fiz.


Você deve apresentá-lo na próxima vez que uma dupla de Testemunhas de Jeová bater na sua porta e querer conversar.

The Least of God’s Priorities agora está disponível online. Não se esqueça de conferir.


Tradução livre de Marcos Souza.




11 comentários:

  1. Parece que de alguma maneira, TODOS NÓS, fomos enganados, violentados, separados da familia, mesmo que não fisicamente, mas moralmente, espiritualmente... Abusaram da nossa ingenuidade e do nosso amor ao próximo e ainda querem abusar dos filhos e dos netos... eu só posso deixar uma mensagem cristã: "Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a lei e os profetas." – Mateus 7:12

    AMAI O PRÓXIMO COMO A TI MESMO, ESSA É A BASE DO CRISTIANISMO... ESSA É A VERDADE DIVINA...

    The lord

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  2. Parabéns Pascoal.
    Todos nós sofremos um estupro espiritual da Torre de Vigia. Perdemos nossa essência e obrigados a viver de acordo com os padrões dela, manias dela e como a Torre é comandada por (velhos mesquinhos e ranzinzas) bem ou mal todas as Testemunhas de Jeová, são assim. Adotaram a personalidade desses homens como um "padrão aceitável e admirável".
    Mesmo com desligamento, leva anos para se perder esses trejeitos adquiridos.
    Mas ainda vejo como lucro, não ter sido vítima de abuso sexual.
    Um abusador "cristão" ((apoiado pelo corpo governante) é como um dragão de comôdo.
    Esse dragão é desajeitado tem as pernas e mãos pequenas e anda se rastejando. Sua principal arma é a mordida, ele ataca as presas maiores mordendo suas pernas e enquanto a presa foge deixando um rastro de sangue, ele a segue até encontrar a presa morta. Um pedófilo espiritual, é como um dragão de comôdo, ele ataca sua vítima, "a molestando sexualmente", e esse ato acaba com a vida da pessoa. Mesmo depois de adulta e na velhice essa dor emocional vai incomodar.

    A pergunta é quem é pior o molestador ou quem o protege? Quem é responsável como cúmplice, pelos atos de pedofilia acontecido na organização?

    Alguém precisa parar esses dragões de comôdo!

    Marcelo Navarro

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  3. Não eles não dizem que não têm, eles afirmam que expulsam essas pessoas do meio delas, o que é mentira. Abafam o caso e mantêm-nas em funções teocráticas. Só os anciãos ficam a saber, e a vítima é desacreditada e incentivada a calar-se em nome do tal jeová a quem adoram. Se respeitassem o nome dele defende -lo-iam com verdade, justiça é honestidade. Os meus parabéns a todos que tiveram coragem de sair e contar as suas experiências e caminham no sentido de desmascararem esta seita falsa que se sentem os escolhidos para a salvação da humanidade. Estou de coração com todas vitimas destes falsos profetas.

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    1. O/a senhor/senhora está muito desinformado/ desinformada, a pessoa é afastada sim.

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  4. eles ainda dizem que na seita deles não tem pedofilia

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    1. pedofilia tem,
      do mesmo jeito que varias religioes tem membros que praticam tal ato.
      Mas todas as religioes tomam medidas mediante a esta ocorrencia.

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  5. Em todas as ceitas religiosas existe pessoas ruins e sem caráter como vocês que criticam a religião do próximo.
    Não existe em parte alguma da terra religião com pessoas santas todos são imperfeitos e pecam.
    inclusive você que entra numa religião e depois sai falando mal, já está pecando.esqueceu-se que vai ser julgado também?
    Cuida da tua vida e da tua salvação, porque essa atitude que vocês tem de falar mal seja de qualquer denominação religiosa demostra que vocês são os falsos profetas...
    O povo

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  6. geralmente eu tbm pratico abusos por ai...
    claro, ISSO com certeza se vincula diretamente com a religiao...
    primeiro, se vc sofreu abuso, procura a policia...
    e depois de feito o b.o vai até os outros anciaos da tua igreja e mostra, simples e pratico, nao?!
    Se voce quer deixar morrer o assunto dentro da igreja, pode deixar tambem..
    a escolha é tua

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  7. Seus país deviam te orienta e triste oque VC passou mas triste e VC culpar Jeová não peque contra o Espírito Santo

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  8. NÃO SE TRATA DE CULPAR ÊSSE OU AQUELE,O TEMPO É O NOSSO MAIOR ALIADO,NA VIDA TUDO PASSA,O IMPORTANTE,É NÃO FAZER ALARDE,QUE VOCE JA FOI VITIMA DE QUEIMA DE ROSCA,O IMPORTANTE É A NOSSA CONCIÊNCIA E TOCAR O BARCO,UM ABRAÇO.

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