domingo, 2 de setembro de 2007

Que dizer dos antigos amigos?
Ao passo que algumas Testemunhas de Jeová não aplicam, em relação a seus parentes dissociados, as pretensas "perfeitas diretrizes que todos nós podemos ler na Palavra de Deus"
[3], a grande maioria dos antigos amigos e conhecidos o fazem criteriosamente. É quase inacreditável o que acontece: uma vez dado o anúncio da dissociação, estes passam imediatamente a tratá-los da maneira mais fria possível, evitando-os completamente. Não importa quanto tempo tenham convivido juntos, ou quão fortes pareciam ser seus laços de amizade - tudo como que se pulveriza de uma hora para outra. E não adianta tentar qualquer aproximação. O relato, a seguir, ilustra essa situação:
Um recém dissociado enviou e-mail para um anterior amigo, assegurando que, de sua parte nada mudaria no seu relacionamento. Veja a resposta lacônica que recebeu: "Caro Senhor, solicito que não envie mais e-mail para meu endereço. Atenciosamente, ..."
Este mesmo dissociado havia comparecido, no dia anterior, a uma reunião da congregação na qual se associara por muitos anos, saindo de lá com o seguinte sentimento: "confesso que me senti mal, como uma pessoa invisível diante de tantos que me conhecem".
Existe explicação para tal comportamento?

O endeusamento à Organização
A organização, representada pelo seu Corpo Governante conseguiu, através de um processo extremamente eficiente, ao longo de décadas, condicionar as mentes dos adeptos a uma lealdade tal, que é impensável para um membro abandoná-la sem perder o favor de Deus. Ou seja, abandonar a organização tornou-se equivalente a abandonar ou rejeitar o próprio Deus! Alguns dos principais argumentos usados para tal autoridade, podem ser expressos da seguinte forma:
[4]
Jeová sempre lidou com seu povo através de uma organização, ou dum arranjo organizacional;
Jesus assegurou que haveria, no tempo do fim, um grupo de cristãos ungidos por espírito, que atuaria coletivamente como "escravo fiel e discreto" e que administraria os bens terrestres do amo;
Apóstolos e anciãos no primeiro século serviram como Corpo Governante para a primitiva congregação cristã;
Um "restante ungido" estaria notavelmente ativo no cenário mundial desde fins do século 19, e, especialmente, após o início do "tempo do fim" (em 1914 EC), atuando através de seu Corpo Governante;
Este seria o "canal de comunicação de Deus", seu "instrumento", sem o qual ninguém poderia entender a bíblia, nem obter o favor de Deus.;
[5]
O conceito de que a "luz da verdade" brilha progressivamente - Prov. 4:18
Nestas circunstâncias, a direção central das Testemunhas de Jeová consegue habilmente controlar a vida de milhões de pessoas, a tal ponto que um antigo membro sentiu-se muito a vontade para expressar o seguinte pensamento, que certamente é compartilhado por toda fraternidade mundial, os chamados "leais": 'o que quer que a organização diga ou faça nós entenderemos como sendo a vontade de Deus para nós'. Ele ainda exemplificou: 'vamos supor que amanhã a organização resolva modificar o tratamento aos desassociados, permitindo agora que os demais membros o tratem, por exemplo, como tratariam qualquer pessoa 'mundana'. Os irmãos se ajustariam prontamente a esta diretriz.'
Raymond Franz, ex-membro do Corpo Governante, cita em seu livro "Crise de Consciência" um incidente que ocorreu numa reunião de anciãos numa assembléia de circuito, bastante revelador. O superintendente de distrito, Bart Thompson, ergueu uma publicação da Sociedade que tinha capa verde. Então disse à assembléia de anciãos: "Se a Sociedade me dissesse que este livro é preto em vez de verde, eu diria: 'Sabe, eu podia jurar que era verde, mas se a Sociedade diz que é preto, então é preto!'" (veja a página 355).
Fica evidente, portanto, que não há espaço para pensamentos conflitantes com os ensinos da organização, primeiro porque existe um conceito de lealdade a ela fortemente inculcado na mente dos adeptos. E segundo, porque há uma acomodação confortável em se pensar que o que tenha que ser feito, ensinado, modificado, terá de vir de cima, da direção central, do "canal de comunicação de Jeová".
[6]

Responsabilidade comunal
O predito homem "que é contra a lei" é um "homem" composto, todo o clero religioso da igreja que professa ser "cristã". Naturalmente, o que for feito por um membro destacado deste "homem" clerical lança culpa sobre todos os outros membros da classe clerical, por concordarem com o que é feito ou por não protestarem contra isso, ou por anuírem e permanecerem na organização clerical. Todos compartilham da responsabilidade comunal pelo que um membro da classe clerical faz de modo representativo, ao falar ou agir pelo grupo inteiro. - Livro Aproximou-se o Reino de Deus de Mil Anos (publicado em português em 1975), página 381, parágrafo 38 (grifo acrescentado).
Com base na declaração acima e levando em conta tudo o que foi aqui exposto, pode-se afirmar o seguinte:
Todas as Testemunhas de Jeová, quer se dêem conta disso, quer não, compartilham da responsabilidade comunal pelo tratamento frio, desamoroso, insensível e antibíblico que é dispensado àqueles que decidiram se afastar da organização, incluindo aquelas Testemunhas que são menos criteriosas na aplicação da norma imposta. (Contudo, isso não se aplicaria àqueles que ainda mantêm algum vínculo com a organização por critérios estratégicos, entre os quais o de ter "trânsito livre" nas congregações para quem sabe, ajudar os demais membros (principalmente familiares), a se livrar dessa responsabilidade comunal).
Não é possível que sentimentos tão íntimos como o amor dos pais pelos filhos, dos filhos pelos pais, entre cônjuges, enfim, os laços que unem os membros duma família, sejam suprimidos pelos decretos mutantes de um grupo de homens imperfeitos, como são os membros do Corpo Governante.
Não é possível que sentimentos de amizade, às vezes maior do que os existentes entre parentes, sejam sufocados por uma norma organizacional que viola os mais nobres ensinamentos bíblicos, entre os quais: amar a Deus sobre todas as coisas, e ao próximo, como a ti mesmo.
Não é possível que pessoas que dizem respeitar o nome de Deus participem, ativamente ou não, em difamar e desonrar este nome por tolerar o dano emocional sofrido por aqueles que se afastam da organização.
Talvez não seja possível modificar um sistema religioso tão autoritário como é o da Torre de Vigia. De modo geral, os que estão lá dentro, sequer o vêem nessa perspectiva autoritária. Outros, ao sentirem-se incomodados com algum arranjo, preferem 'deixar o assunto nas mãos de Jeová' e aguardar. Mas não acham necessário ir além disso.
Quem sabe um dia, ao se darem conta de sua responsabilidade comunal, muitas Testemunhas decidam seguir o conselho da própria organização:
A QUESTÃO PARA OS QUE MANTÊM RELAÇÕES RELIGIOSAS: Nós, pessoalmente, talvez não queiramos mostrar desrespeito para com o nome de Deus, mas se tivermos quaisquer relações religiosas, devemos perguntar-nos: Pertenço a uma seita religiosa que desrespeita e difama o nome de Deus deste e de outros modos? Suponhamos que isso aconteça. Pois bem, neste caso devemos saber que proceder devemos adotar, se respeitamos o nome de Deus. Qual? O seguinte: desligar-nos da participação na responsabilidade comunal de tal seita religiosa, perante o Deus da Bíblia, que é zeloso do seu nome. - A Sentinela, 1º de julho de 1972, página 391, parágrafo 11.

Notas de rodapé:

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[1] O termo "dissociado" será usado no mesmo sentido que o termo "desassociado", especialmente porque a norma de tratamento imposta pela Torre de Vigia é aplicável da mesma forma, embora os dissociados sejam aqueles que voluntariamente solicitaram sua exclusão da organização Testemunhas de Jeová.
[2] A Sentinela 15/10/1971, página 622, parágrafo 10; Despertai! 22/03/1971, página 29, parágrafo 11; A Sentinela 15/11/1973, página 692, parágrafo 7; A Sentinela 15/06/1974, página 373, parágrafo 27; A Sentinela 01/12/1976, página 731, parágrafo 16; A Sentinela 15/11/1979, página 14, parágrafo 1; Despertai! 08/08/1993, página 12, parágrafo 7; A Sentinela 15/10/1995, página 28, parágrafo 23; A Sentinela 15/09/1996, página 9, parágrafo 7.
[3] A Sentinela 15/04/1988, página 29, parágrafo 20.
[4] Usando expressões típicas da organização Torre de Vigia.
[5] A Sentinela 01/08/1982, página 27, parágrafo 4.
[6] Um dos instrutores da Escola Bíblica de Gileade da Torre de Vigia (nos EUA), U. V. Glass, incluiu a necessidade do reconhecimento do "canal de comunicação de Jeová" como um dos três pontos do 'plano para a sobrevivência espiritual'. (Veja a Sentinela 01/03/1981, página 29, parágrafo 9).


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